Scott Westerfeld fala das comparações entre Feios e Jogos Vorazes!


Há algum tempo postamos aqui, no blog, uma resenha sobre Feios (publicado no Brasil pela Galera Record), de Scott Westerfeld. Agora, por sua série também ser uma obra distópica juvenil, o autor resolveu responder àqueles que teimam em comparar sua história com a de Jogos Vorazes, que agora é destaque no mundo todo. Confira: 

 

 “Uma fã recentemente me contou sobre uma briga estranha que ela teve com os amigos. Ela estava contando para eles que “Jogos Vorazes” a lembrava da série “Feios”, e que eles responderam que eu deveria ter copiado ideias de JV por ser tão popular. Ela apontou que Feios foi publicado em 2005 e JV em 2008, mas eles não acreditaram nela, pois JV estava POR TODA PARTE e por isso, veio primeiro.

 

Essa é uma resposta comum na realidade humana: Nós compreendemos o mundo mas não pela sua própria lógica, mas pela lógica de como nós a encontramos. Em outras palavras, o que quer que seja que nós ouvimos primeiro deve ser mais verdadeiro e mais real e primeiro que todas as outras versões por aí.

 

Isso acontece muito com lendas urbanas. Você sabe, você conta a história do Pet Mexicano para um grupo de pessoas e alguém reclama “Não, o rato pet era da Venezuela, não do México!”. Essa pessoa escutou, claro, a mesma lenda urbana que você, mas uma versão um pouco diferente. E por alguma razão ela acha que a que ouviu deve ser a correta. Ela NÃO tem razão para pensar desse jeito, porque ambas as versões são ridículas e bobas e falsas. Mas a outra variante é dela e então ela virou “Time Pet Venezuelano” em seu argumento estúpido. E todos vocês lutam até tarde da noite, suas posições sem se basear na lógica, mas em como você foi introduzido à história.

 

É como filhotes de patos vendo sua mãe ou alguma coisa (Eu vou apontar também que a maioria das pessoas tem a mesma religião que seus pais. Só para constar).

 

Esse fenômeno é parte de um fenômeno maior chamado egocentrismo. Não egoísmo, que é pensar que você é o melhor, mas egocentrismo, a afirmação que suas experiências pessoais são centrais e de certa forma universais. 

 

Mas aqui está a ironia em aplicar essa lógica egocêntrica para a leitura de livros: O romance moderno foi inventado como uma maneira de estar dentro da vida de outra pessoa.

 

Pense sobre isso. Cada palavra de Jogos Vorazes e Feios foi cuidadosamente escolhida para criar a experiência de estar na cabeça de Katniss ou de Tallys. Esse é o porquê de nenhum dos livros ter a frase: “Caro leitor, ao contrário do povo de sua época, ninguém desse mundo do futuro sabe o que é um iPad”. Porque isso colocaria você de volta para a sua vida e arruinaria todo o ponto da narrativa moderna. 

 

Eu falo “moderno” porque não foi sempre dessa maneira. Quando o romance estava em forma mais jovem, vários deles começaram como um tipo de prefácio vagaroso, como “Esse estranho conto que você está prestes a ler foi descoberto em um antigo baú do tesouro bla bla bla”. Mas em romances atuais, as primeiras sentenças normalmente vão BOMBARDEAR QUE ESSES SÃO OS PENSAMENTOS DE OUTRA PESSOA – LIDEM COM ISSO. Por exemplo: “Quando eu acordo, o outro lado da cama está frio”. 

 

É o oposto do egocentrismo, deixar você se tornar outra pessoa por algumas horas. Especialmente quando aquele pessoa vive em uma realidade radicalmente diferente, como uma utopia sarcástica ou um terreno pós-apocalíptica. Esse afastamento de si mesmo é essencial para se ler romances, e é um dos meios que faz com que ler nos torne melhores pessoas. (É também a chave para escrever, que é a razão de eu ter dado certo aviso três anos atrás).

 

Claro, também tem um lado positivo em fazer nossos egos centrais ao processo de leitura: Quando lemos novos livros, nós usamos o conhecimento ganho de todos os outros livros que já lemos. Nós complementamos a história de um romance com a nossa própria história de leitura. Essa é a maior razão de pessoas reagirem diferentemente para a mesma obra, assim:

 

Novo Leitor: “Eu não tinha ideia que Pessoa Romântica 1 e Pessoa Romântica 2 iriam ficar juntos. Eles se ODIAVAM antes!”

 

Leitor um pouco mais experiente: “Aquele livro foi idiota. Eu sabia desde o primeiro capítulo que Pessoa Romântica 1 e Pessoa Romântica 2 iriam ficar juntos!”

 

Leitor Experiente: “É legal o que o autor fez com Pessoa Romântica 1 e Pessoa Romântica 2 naquela cena, porque aquilo vai ser mais irônico quando eles ficarem juntos.”

 

Isto é, de fato, a principal forma de que podemos dizer o quão sofisticado é um leitor, pela forma como eles se relacionam o texto em questão em relação a todas as outras coisas que ele já leu.

Mas deixarei todas as questões mais sutis sobre o egocentrismo prontamente em suas capazes mãos. Estou curioso para saber como suas experiências com as obras de outros autores mudaram suas opiniões sobre a minha. […]”

 

Na mesma postagem, o autor revelou as novas versões das capas da série Feios no Reino Unido, com um irônico “Before The Hunger Games, there was…” em todas elas.

 

 

Texto original pode ser conferido no blog do autor*

 

 

 

Muito triste ver esse tipo de comparação infeliz, não? Ambas são obras muito boas, com uma forma diferente de desenvolvimento. Mas ainda assim, a tendência é aparecer cópias descaradas de Jogos Vorazes,  como já vem acontecendo por aí. Mas bem, Scott é autor de seus próprios méritos, e com várias outras obras se sucesso. Recomendo que corram atrás tanto do trabalho dele, quando o de Suzanne Collins.

 

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